Era o Inverno de 69.
Havia notícias como há sempre,
e suponho que fizesse frio.
A parentela acorria,
acotovelava-se ao redor da cama,
fingia estar feliz, ou talvez estivesse,
sabe Deus porquê. (Ao mesmo tempo,
abrigava-se da chuva.)
Nunca fui tão pequeno, nem tão pouco
parvo. A partir de então, industriaram-me
nas artes e ciências de estar vivo,
excepto a respiração, que é oferecida:
comer, roubar, fugir,
ser intramuros e existir na gleba,
e desistir
silenciosamente.
Sim. Foi, para mim, o Inverno dos Invernos.
E não há meio de acabar.
Miguel Martins
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