Do efémero

Há anos que ando a fugir de uma parte de mim, a tentar anulá-la. Tenho medo de me vir a a tornar uma mulher excêntrica, de saia comprida, túnica, gatos ao colo, a falar de espiritualidade. Por outro lado, oxalá me transforme nessa visão feliz e serena, só possível em quem se encontrou e está em paz consigo própria.

Há dez anos que escreve o que ninguém lê, dia após dia, artigos de hoje, o jornal que acaba a forrar a caixa de areia dos gatos, ou como diria Manuel António Pina, a embrulhar peixe. Penso que isto acabará por ser um processo de aprendizagem para no futuro fazer algo que me realize. Porque um dia o apelo será demasiado forte.

Não creio que seja pelo que criamos, pelo que deixamos. Mas por quem deixamos neste mundo, quem criamos e educamos: íntegros, conscientes, empáticos, ligados à natureza e à mãe terra, herdeiros de uma consciência coletiva e de um bem comum.

Machado Pereira

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