O porvir não vem nunca

Os cães da memória
sabes
mordem
mas já
quase
não ladram.

O porvir não vem nunca
– advertiu-o don ángel –
mas vens tu
derreter calçadas
arrasar solidões.

Os cães cheiram-me o sangue
como eu faço com tua carne
com focinho de mastim
com o rabo em desafio.

E não há futuro/
nem presente/
nem passado/
mas há aqui/ agora/
tu/
eu/
e um domingo a abrir.

O amanhã é o placebo
que metem na veia os cobardes
e neste quarto anoitece
sempre às seis e meia da tarde.

Hoje
os cães
uivam a ninguém.

O sol, irritado,
busca a lua
em vão.
Está nua na minha cama.

Carlos Salem

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