Tinha eu os meus catorze ou quinze anos e Saramago estava com muita popularidade, tudo o que dizia ou fazia causava alarido, e até escândalo, quando se referia a à igreja. Teimei que não me interessava ler um autor que parecia apenas interessado em polémicas. Achei que as pessoas o estavam a ler pelas declarações e não pela escrita.
Tinha eu um vizinho que achava que era ateu. E esse vizinho teimava que eu tinha de ler Saramago, porque no seu entender uma rapariga jovem e inteligente como eu não tinha porque ser crente. Havia bons livros lá em casa, e eu havia de ler todos antes de Saramago.
Saramago acabou por me dar não apenas os seus livros, mas por me levar por caminhos estreitos a conhecer toda a obra de Cardoso Pires. E Alexandra Alpa foi um marco para mim... Mas lá cheguei, a Saramago, vários meses depois, pela mão de alguém que tinha na vida lido pouco mais do que O Ensaio sobre a Cegueira, e só por ser uma obra obrigatória do secundário. Mas dizia ele que era mesmo bom. E era. Esse livro levou-me ao Memorial do Convento, à Jangada de Pedra, a Todos os Nomes (fantástico) , ao delicioso Ano da Morte de Ricardo Reis, à Ilha Desconhecida. Só dois ou três anos mais tarde comprei ao meu pai o Levantados do Chão, e coincidentemente foi o único dele que não gostei até hoje.
Atualmente loucura da boa é pela Clarice Lispector e pelo Gonçalo M. Tavares. Pelo meio ficou uma devoção quase religiosa a Jorge Amado, García Márquez, Isabel Allende. O certo é que lia tudo o que me aparecia pela frente, mas os autores da América Latina, e concretamente do Brasil, continuam a ser dos meus favoritos. Gostava de ler os russos, mas tirando a Anna Karenina e pouco mais, acho a escrita fria e pouco motivante. O Capote, de Gógol, há uns três ou quatro meses, foi a mais recente tentativa. O escritor é fenomenal, mas não é o meu estilo. Adiante. Por estes dias lêem-se contos infantis. Dias felizes.
Machado Pereira
Machado Pereira
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