Não sei falar. Nunca soube. Fico exausta quando

falo. Todos vocês devem ficar a saber disto.

Nunca chego a dizer exactamente aquilo que

pretendo - fica sempre do outro lado do vidro.

Daí a poluição que me envolve. Um pranto.


Derivo das várias posições no mundo. Da

ignorância, de todos os poemas que comi, de

todos os livros, todos os ídolos (geralmente

esquisitos), todos os palcos e cinemas, balcões,

da família, de todos os amigos. Raros no mundo.

Valiosíssimos. Eu sou eles todos e as viagens que

nunca fiz. Sou tudo isso. Não há mais ou menos

importância em nada, especificamente - tudo isto

é o meu sangue no papel.


Tenho várias salivas. Vários géneros. Acumulei

rostos e corpos. E o teu, o teu, o teu, o teu e

ainda o teu, continuam guardados, para sempre,

em todos os meus lugares. Eu sou tudo o que

vocês fizeram de mim. E tu, meu amor, tu dormes

ainda na minha cama. Planetas nos olhos.

Tecendo melodias. Trazendo gengibre na boca.

Para a minha boca. O teu tear.


Importante é dizer-vos que trago fruta para

todos. Flores. Paciência. Coração. Mesa. Uma

lareira. Delícias. Espaço. Muito espaço.

Jacarandás para ti, Mário! Jacarandás para

sempre. Também para ti, todo o Rossio em

Junho. Abraços com força e ombro. Manta.

A minha intenção é dar-vos uma coisa impossível

à partida. Uma invenção.

E estou longe. Estou muito longe para mim.


Passa por aqui, várias vezes por dia, um único

pardal. E nem ele, mais solitário que eu, me

cumprimenta.


Patrícia Baltazar, in
Fumar mata

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