Lembras-te Fátima? Era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? Quem se lembrará de mim? Se nem tu já te lembra de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: “Ficamos amigos como dantes”… E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes…
Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não
era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora,
uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: “adeus” e
saias da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial e um gesto
de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido
tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma
coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e
saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para
fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós
boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se
devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao
repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora,
não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas
porque morri ali naquela palavra, - morri entendes? -, perdi-me numa grande
confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu
corpo, das suas entregas ou das suas traições, de tu me dizeres: “Vem”, ou
“Adeus…”, ou “Não quero…”. Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra,
conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de
rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz…, tanto me faz…Sabia-o.

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