Sobre ter um escritor na família



"É uma notícia triste e não me lembro de nada que possas fazer. Recordo-me bem do horror que os meus pais sentiram quando finalmente acreditaram que eu ia viver assim – e com razão. Tens de te preparar, tal como eles se prepararam, para uma vida tornada insuportável por um filho cruel, conflituoso, cheio de opiniões, mal-humorado, pouco razoável, nervoso, irrefletido e irresponsável. Não podes esperar dele lealdade, nem muita consideração nem atenção. Na verdade, vais desejar matá-lo. Tenho a certeza de que os meus pais consideraram a hipótese de me envenenar. Não haverá descanso nem para ti nem para ele. Nem sequer terá a decência de ter sucesso ou, se tiver, vai encará-lo como fracasso, visto que uma das características da profissão é o escritor falhar sempre se for minimamente bom. E o Dennis [Dennis Murphy] não é só um escritor; receio bem que seja um escritor muito bom.

Os meus sentimentos a ti e à Marie, mas aviso já que não há nada a fazer. Doravante, o teu dever como pai será ir buscá-lo à cadeia, dar-lhe de comer para que não morra de fome, assistir em desespero quando ele se comporta de modo irracional – e a recompensa de tudo isto será a de ser ignorado, na melhor das hipóteses, e insultado e denegrido, no pior dos casos. Não esperes compreendê-lo, visto que ele não se compreende a si mesmo. Por amor de Deus, não o julgues a partir das regras habituais da virtude, do vício ou dos defeitos humanos. Toda a gente tem um preço, mas o preço de um escritor, se for um escritor a sério, é muito difícil de definir e quase impossível de concretizar. O meu melhor conselho é não te meteres, adaptares-te e sobretudo ganhares estômago. Se pensas em matá-lo, mais vale tratares disso já, senão depois será demasiado tarde. Não antevejo paz para ele próprio e tu terás pouquíssima. Podes sempre dizer que não é teu filho. Há muitos Murphys por aí."

Carta de John Steinbeck (1902 – 1968) dirigida a John Murphy, cujo filho, Dennis Murphy (1932 – 2005), pretendia ser escritor

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