Preparei uma lista de perguntas
cujas respostas já não chegarei a obter,
ou por ser demasiado cedo para elas
ou não conseguir entendê-las.
A lista de perguntas é longa,
toca em assuntos menos e mais importantes,
e como não quero aborrecer-vos,
revelarei apenas algumas:
O que foi real
o que aparentava sê-lo
nesta plateia
estelar e subestelar,
onde é obrigatório tanto o
bilhete de entrada como o de saída;
O que será do mundo vivo
que não terei tempo
de comparar com outro mundo vivo;
De que vão falar
os jornais do dia seguinte;
Quando cessarão as guerras
e o que as substituirá;
No anelar de quem
andará o meu anel de estimação
furtado ou perdido;
Onde fica o lugar do livre-arbítrio
que consegue estar e não estar
em simultâneo;
E todas aquelas dezenas de pessoas -
ter-nos-emos realmente conhecido;
O que tentava dizer-me M.
quando já não conseguia falar;
Porque tomei por boas
as coisas más
e o que me faltará
para não mais me enganar?
Certas perguntas
anotava instantes antes de adormecer.
Quando acordava
já não as conseguia descodificar.
Às vezes suspeito
ser este o código correcto -
mais uma pergunta
que um dia abandonar-me-á.
Wislawa Szymborska, Instante, ed. Relógio D'Água, trad. Elzbieta Milewska e Sérgio Neves
Sem comentários:
Enviar um comentário