O meu amor não cabe num poema
O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo; são como corpos desencontrados da sua arquitectura ou quartos que os gestos não preenchem. O meu amor é maior que as palavras, e daí inútil a agitação dos dedos na intimidade do texto – a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías nem a candura da mão que protege a chama que estremece. O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro que acode aos lábios como a urgência de um beijo ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo, ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo. O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas. Um verso que o vestisse definharia sob a roupa como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema podia ser o chão da sua casa. Maria do Rosário Pedreira
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