XXXV

Deus é um cabrão. Uma miséria. É um cão podre. Bafiento. Urina do céu, um ácido. Deus complica a natureza. Deus é o verdadeiro trafulha. Veste-se com bata de ouro para as crianças morrerem com fome. Deus pôs as minhas mãos em água benta a ferver. Deus tem unhas amarelas e perversas. Tem litros de sémen nas mãos e na batina de tanto se masturbar à conta da indignidade dos homens. Deus não ouve Chopin nem Mahler nem a Amália porque a pele-de-galinha é prazer de mais e chicote. Deus é o vidro que corta os pulsos à humanidade. Deus é a fome. Gosta de se virar de costas para Sodoma. Deus é o gato preto à minha frente esta manhã. Deus é a áscua que engana e queima. Deus é o asco. O nojo. A grandessíssima tristeza. Um vampiro bêbado que chupa o sangue às crianças no pátio da escola. Deus é um falo. Um cunnilingus mal amanhado.

Que se foda.

Patrícia Baltazar, FUMAR MATA, Colecção Madrugadas, 2013

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