Como adormecer ternamente, ou a recusa do amor

Faço refeições filosóficas, dantes só fazia refeições boas. Agora não consigo evitar pensar enquanto cozinho. Por entre alhos franceses e batatas. Não penso neles. Descasco-os, pico, ponho ao lume. Penso. Divago. Um destes dias posso dar azo a um conjunto de "receitas para bem filosofar".

A recusa do amor

Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.


Filipa Leal

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