crónica dos dias maus

Hoje, mais demorada do que nunca, veio a morte vender ao meu limiar. Diante de mim, mais demorada do que nunca, desdobrou os tapetes, as sedas, e os damascos, do seu esquecimento e da sua consolação. Sorria deles, por elogio, e não se importava que eu a visse. Mas quando eu me tentava por comprar, falou-me que não os vendia. Não viera para que eu quisesse o que me mostrava; mas para que pelo que mostrava, a quisesse a ela.
(...)
O apego natal, que me prendia ao meu limiar desvestido, com suave gesto o desligou. "O teu lar", disse, " não tem lume: para que queres tu ter um lar?" "a tua casa", disse, "não tem pão: para que te serve a tua mesa?" "A tua vida", disse, "não tem quem a acompanha: para que te seduz a tua vida?"
(...)
"O amor que me tem", ela disse," não tem paixão que consuma, ciúme que desvaire; esquecimento que deslustre. Amar-me é como uma noite de verão, quando os mendigos dormem ao relento, e parecem pedras à beira dos caminhos. Dos meus lábios mudos não vem canto como o das sereias, nem melodia como a das árvores e das fontes; mas o meu silêncio acolhe como uma música indecisa, o meu sossego afaga como o torpor de uma brisa."

Marcha fúnebre para o rei Luís Segundo da Baviera
Livro do Desassossego 

Sem comentários:

Enviar um comentário